30 de setembro de 2004

E NÃO BUFA!

Hoje foi anunciado o início das portagens nas SCUDS (sigla inglesa que quer dizer Estrada em Sítio Onde Dantes Seria Preciso Morrer Para Lá Chegar). Como não se atreveram a desmentir o José Barroso, lá inventaram esta coisa de durante 2 ou 3 anos os indígenas não pagarem. Depois dessa data, ou pagam ou vão marrar com os cornos contra os camiões da nacional 125, isto para só citar uma das zonas atingidas.
Os juros para habitação também vão subir.
E por aí fora.
Está assim compreendido o que queria dizer Bagão Félix ao afirmar que a economia de um país se gere como uma casa de família. Não especificou é que a casa era a do Santana Lopes e que a maioria de nós só ganha para ser o seu criado de quarto. Por este andar vamos acabar todos a passar fome. Ou a ver passar os mercedes dos quer roubam quanto podem.
Em termos históricos, nada de novo. Em 24 de Abril de 1974 era exactamente assim...



INDIE - dia 6

Além das curtas (que esgotaram, claro) houve a antestreia do último filme do João Canijo "Noite Escura" (a tradução foi muito mais romântica: "In the darkness of the night"). Sessão concorrida com a equipa do filme, e uma chusma de actores mais ou menos reconhecíveis.
Que dizer? Houve quem gostasse.
Pessoalmente fico-me por alguns momentos do desempenho da Rita Blanco. E por uma Beatriz Batarda muito bonita (por dentro) e quase sempre eficaz. Quanto à realização, para quem não tenha visto nada do realizador, se abstenha dos filmes a concurso e se meça por aquilo que se faz em Portugal com o dinheiro dos nossos impostos... diria que foi boa.
Claro que isto que estou a dizer será contradito pelo Público e por vários jornalistas que ganham a vida a escrever bem sobre as produções Paulo Branco, aquando da estreia. Adiante.

Hoje, temos um filme do Sabu "Hard Luck Hero", acção em japonês. Nunca vi nada dele mas dizem-me que tal como o autor do "Breaking News" tem uma legião de fãs.
Além disso e super-recomendável, duas sessões de curtas-metragens (chegar cedo para apanhar bilhete, recomenda-se)

A votação para o Prémio do Público sofreu ontem uma reviravolta com a ascensão directa ao primeiro lugar de ALICE ET MOI. Para os que estão lembrados, ou tenham pachorra de ler os arquivos deste blogue, já se tinha vaticinado a coisa.
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28 de setembro de 2004

INDIE- dia 5

Vou ser breve: as duas sessões de curtas metragens foram boas, bem equilibradas; o filme "Temporada de Caça", foi óptimo (estreia em breve, em Portugal). As salas mais pequenas (250 lugares) continuam a esgotar amiúde e a EGEAC continua a não tratar do ar condicionado.
Ah: e, pela primeira vez em Portugal, um catálogo de Festival (onde estão as fichas técnicas, sinopses...) esgotou e estão a imprimir a 2ª edição. Um sucesso editorial que assevero não ser, de todo, light...

PATH

Há pessoas que carregam a solidão dentro de si. Como uma segunda natureza. Como se o mundo fosse uma arca de noé, com todas as espécies aos pares e eles se segurassem sozinhos à amurada, enquanto as águas subiam e a nave balança. Não há nisto nada de especialmente trágico. Apenas outra forma de viver a sua condição.
É a estes que os tarólogos gostam de mostrar a carta "O Ermita".
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INDIE- dia 4

Estou a resistir. Quatro dias enfiado nas cadeiras do S. Jorge. Acho até que me estou a habituar à temperatura das salas. Como se vivesse sobre o Equador... Adiante.
O sucesso do festival, não sendo inesperado, está a ultrapassar todas as expectativas. Milhares de espectadores assistiram aos 4 dias de exibições, atingindo números que estão a fazer cair de cu, a rapaziada da Câmara de Lisboa: os mesmos que recusaram à Zero em Comportamento, uma das salas pequenas onde fosse possível ter uma programação regular de cinema independente... Enfim, pela falta de neurónios morrerá o peixe.
Ontem foi dia da segunda (e última) exibição das aventuras da IRON PUSSY, um disparate fílmico do impronunciável Apichatpong Weerasethakul em colaboração com Michael Shaowanasai e do CZECH DREAM (até ao momento, o principal candidato a Prémio do Público) Não consegui ver este último, mas a reacção geral foi a melhor. Quanto às peripécias da agente transexual Iron Pussy ( o nome diz tudo) foi um fartote de riso. Julgo que a maioria dos espectadores (a sala estava praticamente esgotada, pela segunda vez) também. Houve quem odiasse, claro. É um daqueles filmes que se presta a isso.
O BREAKING NEWS também juntou mais de 300 espectadores (número a olho). Um policial bem construído, para apreciadores do género.
Falhei o LISBOETAS, documentário de Sérgio Trefaut, que espero ver em próxima apresentação.
Para quem ainda lá vai hoje, recomenda-se a Competição de Curtas 1, A TEMPORADA DE PATOS e (não vi...) o que parece ser um dos filmes mais bizarros do festival LE MONDE VIVANT
NO COMMENTS

Ontem, um homem que ganha a vida a vender bolos de chocolate despediu-se de mim com a frase "Obrigado por ser meu fã.
Todos os dias ouvimos coisas surpreendentes.

27 de setembro de 2004

INDIE-dia 3

Foi dia da argentina Lucrecia Martel, com a sua LA NINA SANTA. Não vou mentir, fiquei um pouco decepcionado, face a tanta expectativa. Claro que ela filma com uma sensibilidade muito interessante e que o filme arranca e termina bem... Mas o meio enrolou, enrolou... Enfim.
O pior foi o sistema de legendagem ter resolvido armar-se em caprichoso. Perante uma audiência de mais de 500 pessoas (sim, leram bem, a sessão ultrapassou os 500 espectadores), decidiu que não lhe apetecia. A organização parou o filme, pediu desculpas e tratou do problema. Perante uma ou duas pessoas irritadas (provavelmente habituadas à eficiência mecânica dos cineminhas da Lusomundo - tipo queca semanal: não falha, mas não deixa saudades) seguiram a segunda hipótese proposta e reaveram os preciosos 2 ou 3 euros do bilhete. Estavam no seu direito.
Melhor foi a selecção de curtas que passaram em Sundance. Com destaque para o último filme, GOWANUS, BROOKLIN, uma incursão nos subúrbios novaiorquinos, com óptimas interpretações.
Também à volta da comunidade negra (afro-americana, como é politicamente correcto afirmar-se), foi o filme da tarde, premiado em Sundance. Bem construído, sem grande arrojo. E um pouco panfletário para o meu gosto, na sua insistência em nos mostrar a chatice que é ser gay, negro e artista para aqueles lados. A gente já tinha percebido... Não era preciso fazer mais um filme sobre o tema. Digo eu.

Amanhã é o dia das curtas não competitivas, esse sim, a não perder. E para quem gosta de filmes de acção total, em ambiência "manga" (grosso modo, já que o filme é de Hong Kong), passa o BREAKING NEWS, do JohnnieTo. Ah, e já me esquecia, um filme de produção portuguesa (realizador brasileiro) LISBOETAS, de Sérgio Trefaut.


A SUÍÇA UBER ALLE

"Os eleitores suíços rejeitaram hoje a facilitação do processo de naturalização de imigrantes de segunda e terceira geração, depois de uma intensa campanha nas vésperas do voto, que diversos partidos e organização denunciaram como racista e xenófoba.Cinquenta e dois por cento dos eleitores suíços rejeitaram uma primeira proposta de legislação que dava cidadania automática a estrangeiros de terceira geração nascidos na Suíça, isto é filhos de pessoas nascidas no país ou netos de imigrantes residentes na Suíça há muito. Uma segunda proposta, que pretendia facilitar o acesso à cidadania para a segunda geração, foi rejeitada por uma maioria ainda maior: 57 por cento." (in "Público").
Só quem não conhece de perto este pequeno país, com os seus agricultores altamente subsidiados e protegidos (não só os preços dos produtos agrícolas são absurdos, como é proibido ir a um dos países do lado e fazer compras à vontade, só para dar um exemplo), as velhas denunciantes atrás dos cortinados das janelas e a opinião generalizada de que os estrangeiros não são "propres" (limpos/correctos"), é que pode ficar admirado.
Este grupo de lavradores, enriquecidos com a desgraça da segunda guerra mundial e com os biliões e biliões de dólares sujos depositados nos seus bancos, acabará sozinho. Uma espécie de aldeia gaulesa, mas muito envelhecida...

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26 de setembro de 2004

INDIE - DIAS 1 E 2

Lotação esgotada para a abertura, como se (eu) esperava. 24 antes, já não restavam bilhetes para o BEFORE SUNSET. Lá nos abanámos com leques ou com o que se apanhou a jeito (já lá irei ao assunto...) enquanto assistíamos ao comovente reencontro das duas personagens, em Paris.
Um filme romântico mesmo para quem não gosta de romantismos. Uma película que parece feita de simplicidade: planos sequência, dos dois nas ruas de Paris, diálogo constante, ausência de grandes acções... E contudo, somos tocados. E contudo, criamos empatia total com os protagonistas. A recomendar, aos corações sensíveis, assim que estrear em sala ;)

Hoje, assisti ao FOG OF WAR, um documentário americano, bem escrito, bem realizado e, sobretudo, montado de forma hábil. Através da entrevista ao antigo Secretário da Defesa (que conduziu o processo de guerra durante o final da 2ª Guerra Mundial, crise dos mísseis de Cuba e Vietname) percebemos melhor o que leva os homens à guerra. E, também, que alguns deles o podem fazer sabendo que não há nada de mais errado do que um homem matar outro.

Como não tive pachorra para o filme francês (creio) OR MON TRESOR - e bem, a julgar pelo enfado de alguns dos espectadores apanhados em falso), pude pensar com calma se queria ver o filme O ALBINO (que estreará em Setembro) ou o super-comentado em Cannes TARNATION. Optei por este último. Sala totalmente esgotada, de novo.
Resumidamente, trata-se de um interessante filme, feito a partir dos auto-registos (em vídeo, super 8...) do realizador. Ao contrário do que a sinopse sugeria não me pareceu um filme "sobre a mãe". Antes um exercício virtuoso de um Narciso. Mas que exercício...!
Custou perto de 200 dólares, montado num Macintosh caseiro...
A quem servir a lição, que a aprenda.

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Amanhã há mais.
O S.JORGE

Os organizadores do IndieLisboa vieram provar não só que Lisboa (e o país) necessitava de um festival internacional de cinema a sério, como era possível fazê-lo. Com trabalho, profissionalismo e uma competência aliada a um grande amor ao cinema.
Daí que se visse na cara dos funcionários de São Jorge uma motivação inesperada. Pela primeira vez (que eu me lembre) vi aqueles funcionários a darem o seu melhor e a trabalhar com gosto. Está bem que não viam espectadores há muito tempo e que salas quase sempre à cunha de gente interessada, também por ali já não havia memória. Mas ainda assim.
Claro que... quem por lá tem passado os últimos dias tem suado as estopinhas: literalmente. A EGEAC (a empresa que toma conta dos equipamentos culturais da cidade) tinha-se "esquecido" de que o sistema de ar condicionado estava avariado. "Há uns dias?", perguntei eu, ingénuo. Não HÁ MESES. "Como vai para obras, não valia a pena...".
Deixem-me pôr as coisas assim: ao aceitar festivais e mostras de cinema e a não lhe dar as condições mínimas (40 º dentro de uma sala é obra...) é o mesmo que eu convidar amigos para jantar em minha casa sem ter lavado a louça. "Como se vai sujar a seguir...".
Oh, valha-me Deus!

23 de setembro de 2004

A NOSSA MENINA!

Ai que grande alegria: a nossa menina vai para administradora da Caixa Geral de Depósitos. Quem andou a dizer que a Celeste Cardona mereceria a coroa da Ministra Mais Estúpida do Mundo, deve estar neste momento a sentir-se constrangido. Será incompetente, pois será. Não percebe um boi de actividade bancária, pois não percebe. Mas que diabo, não será ela um maravilhoso símbolo dos tempos em que vivemos? Premiar a inépcia e a estultícia não se tornaram obrigatórios, em 2004? Santana Lopes não chegou a primeiro-ministro e não se arrisca a chegar a Presidente da República, depois de esburacar Lisboa e delapidar o erário municipal?
Ora aí está: a nossa Celeste vive os seus (longos) 15 minutos de fama.
A dúvida consiste em saber quantos mira-amarais irá ela arrecadar por mês?!

ps: se quiserem saber o que mais irá acontecer em Portugal basta lerem a Bíblia, livro do Apocalipse: "Apareceu ainda outro sinal no céu:era um grande dragão de fogo com sete cabeças e dez chifres..." etc, etc....

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22 de setembro de 2004

A ÚLTIMA FRASE

Quantas vezes não daríamos tudo para não ter dito uma frase? A palavra-bicho que morde o outro com violência. Sai-nos a razão dos braços, porta fora, deixando-nos o embaraço de se ter ultrapassado a intenção inicial.
Eu não sei, por vocês, mas quanto mim gostava de me calar mais cedo. Tantas vezes...

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ESCOLHAS
Por sugestão das Produções Fictícias, Clara Ferreira Alves vai ter um conto seu adaptado à televisão. O pacote financiado pela RTP, contém ainda escritores contemporâneos, como é o caso de Mário de Carvalho ou Luisa Costa Gomes.

21 de setembro de 2004

O FASCÍNIO DA PROSA

Um jovem poeta (rapaz simpático e de quem tenho aliás boa impressão) disse, há dias, numa entrevista, "estar fascinado pela prosa". E acrescentou que "tinha argumentos para vários romances".
Muitas páginas de experiência depois só posso usar a palavra "ingenuidade", sobre esta atitude. Achar que se "tem o argumento" (a ideia da coisa, depreendo eu...) é o mesmo que declarar ter conseguido que uma serpente faça o pino todas as noites. Isso simplesmente não acontecerá. "Aquilo" que um romance é, define-se muito tempo depois de se começar a escrever. Nem sequer basta conhecer todas as personagens, ou saber o que desejam elas fazer. A essência de um livro que não se queira livreco forma-se a seu belo prazer. Nem o nosso poeta, nem eu, controlaremos algum dia o processo.

ps: a este respeito recebi um post do referido autor (a quem envio um abraço), demonstrativo da sua postura séria, e esclarecendo o lado que mais me intrigara nas suas alegadas afirmações (adaptando o Pessoa, "entre o que se diz aos jornais e o que eles publicam... há uma diferença de verbo"). Não discorda na generalidade das minhas afirmações. Acrescento que seria interessante continuar esta discussão, por ser ela em muitos casos fruto de equívocos e desconsolos pós-publicação.
O MISTÉRIO DA MENINA DESAPARECIDA

A confirmar-se a notícia de ter sido a própria mãe a entregar a filha a um casal de alemães (nesta época de afirmações peremptórias e desmentidos, este post é capaz de deixar de fazer sentido daqui a uns minutos...), todos se vão atirar à mulher como cães. A população que procurou a criança em vão; a judiciária que fez aquilo para que é paga mas que embirra com gente que a engana; nós espectadores que ficamos com o coração apertado.
E, contudo, ao pensar nesta mãe carregada de filhos, arranjados e mantidos sabe deus como, consigo perceber o gesto. Se o gesto foi simples, claro, já que pouco se sabe do protesto. Cresci em meios em que era normal pais de famílias numerosas terem os filhos a crescer junto de "padrinhos", pessoas mais abastadas e sem filhos. É verdade que se seguiram muitos casos de toxicodependência e pequenez moral. Mas, lembro-me do misto de alívio e sofrimento pela separação desses pais. É capaz de ter sido uma coisa dessas, vamos a ver...

20 de setembro de 2004

FILMES

Enquanto não chega a sexta-feira para darmos início ao visionamento intensivo de alguns dos melhores filmes produzidos no mundo, via INDIELISBOA (Cinema São Jorge) sempre nos vamos distraindo pelo cinema comercial. Atraído pelo "Sugerido de um livro de Asimov", fui ver o I ROBOT. De facto, era sugerido. De facto, o Will Smith é um actor... divertido. De facto, não foi uma má experiência, embora a milhas do talento do escritor que esteve na origem da história. th-FX-2.jpg
A melhor interpretação é, de facto, a do actor vestido de verde que dá vida ao robot 3D. Tal como em O SENHOR DOS ANÉIS, a "interpretação computorizada" abre um precedente na história do cinema. E, prova, ao contrário do tema do filme, que por detrás de uma máquina está sempre o talento do Homem.

ATLETISMO CULTURAL

Já tentaram escrever um romance denso de centenas de páginas aos bochechos, entre corridas para pôr o pão na mesa? É fascinante. O equivalente ao maratonista que treina para os jogos olímpicos, uma hora por dia, depois de despachar as declarações fiscais do irs durante 8 horas.
Mas, com o que se poupa nas bolsas de criação literária, durante um ano, sempre se pode pagar um mês de reforma aos miras amarais.
São as opções de um país que tem o que merece.


17 de setembro de 2004

MAS A DIGNIDADE TEM PREÇO?!

É para mim um mistério o facto de ser pacificamente aceite que um secretário de Estado ou um ministro tenha de se deslocar de BMW para cima. E dentro destas marca e de outras só lhes serve o topo da gama. Nenhum pode chegar num Seat, ou num Citroën. Por causa da "dignidade".
Na verdade, acontecem aqui duas coisas: a) a cáfila usa os cargos para andar de cu tremido, como nunca tinha andado antes. b) assume-se que desde o tempo em que os bispos se vestiam de púrpura, os reis se cobriam de arminho e nossa-senhora de brocado e ouro que só assim é que o povo se verga e convence...
Não me parece que estejam totalmente enganados no último caso, helàs. Sempre dá outro efeito chegar de mercedão à festa na aldeia. Mas, admitindo a semi-legimitade da coisa (e sem sair do campo da demagogia total), falta a questão "onde é que vamos buscar os carros?".
Ora, lembrava-me, e bem, uma amiga minha que trabalhou na Alfândega vários anos, de que neste sítio se encontram parados, para leilão, centenas de carros de alta cilindrada, apreendidos por mil razões. Não poderiam estas viaturas ser colocadas à disposição dos nossos Rabinhos-de-veludo?
Claro que aí não haveria standes envolvidos.... Nem carros a irem parar por 10% às mãos de familiares directos dos referidos políticos.
Mas que diabo! sempre podem esperar pelo inevitável tacho administrativo que se seguirá à função governamental e, nessa altura, ser generoso com os primos e tias.
Digo eu...
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QUANDO EU FOR GRANDE, QUERO UM POPÓ!

16 de setembro de 2004

MIRA K GUAPO!

Consta que o ex-ministro Mira Amaral, vai para a reforma com a módica quantia mensal de 3600 contos. A causa desta soma (despachada em tempo recorde) deriva da sua meteórica passagem pela pública Caixa Geral de Depósitos.
Uma constatação que pode fazer salivar os milhares de reformados que vivem com menos de um salário mínimo, é só o que posso dizer.

Ainda dentro dos salários da (dis)Função Pública, respondeu o beato Bagão que "o ordenado médio é de 1800 euros" (10% da reforma acima referida, portanto). Não soubéssemos nós que o salário médio se calcula a partir da diferença entre um administrador de empresa pública (CP, GALP...) e um porteiro de câmara e acreditaríamos que a maioria vive folgadamente.

15 de setembro de 2004

ESTOU

Passamos a vida com medo de perder isto ou aquilo. Medo do quê se a morte nos levará tudo? Por mais que nos esforcemos, nenhum de nós poderá guardar para sempre a beleza, a casa de sonho, a carreira brilhante, a admiração dos maiores...
O único medo que me parece legítimo é o de viver amedrontado.

INÍCIO DE SÉCULO

À medida que nos entranhamos no início do século XXI e vou ouvindo o que se pretende para ele, vem-me à memória o nome de um filme: "Toda a Nudez Será Castigada".

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DEMOCRACIA MUSCULADA

Acabo de ouvir uma das mais fantásticas declarações dos últimos tempos. O (por assim dizer) ministro da justiça disse qualquer coisa como isto: "Queremos a concertação (a palavra era outra, de que me não recordo, com o mesmo sentido) com os parceiros sociais. Mas com ela, ou sem ela, vamos efectuar as reformas.".
Se alguém tiver o número do ministro faça o favor de lhe telefonar e dizer que há psiquiatras que fazem um trabalho excelente no campo do autismo.

14 de setembro de 2004

NÃO NOS TIREM O TABAQUINHO

O Correio da Manhã gritava com as letras todas: "O Tabaco paga a crise". Estavam horrorizados com a perspectiva de terem de reduzir o vício, mercê do aumento de preço do dito cujo.
Na verdade, o terror vai chegar no dia em que tiverem de deitar no lixo as beatas que enfiam aos milhões na areia ou deitam para o chão na esperança que cresça. Mas, não se preocupem, a atender à impunidade com que toda a gente acende cigarros no Metro, debaixo das placas de Proibido Fumar, não será para breve.
O FIM DA VERGONHA (falta saber o começo de quê...)

Um dos piores momentos da minha vida passei-o entre as paredes do quartel de Setúbal. Depois de anos de faculdade, a endividar-me para estudar os autores clássicos e contemporâneos, vi-me na contigência de perder quase 2 anos da minha vida ao serviço de coisa nenhuma. Não se estava em guerra, havia gente suficiente para manter o número de generais no activo, mas mesmo assim, lá me chatearam. Fui à Inspecção, como os outros. Dei o meu pior nos testes físicos, como a maioria... e o meu melhor nos psicotécnicos, já que se a desgraça se confirmasse ao menos que vegetasse em furriel (um lindo nome, só comparável ao biológico "roaz corvineiro"!).
Lá fui parar à Reserva, mas ninguém me tira a sensação de impotência que me invadiu nesse dia, preso nas malhas do mais pacóvio do nosso país. Sabia que se quisesse sair naquele momento dali, haveriam de se cruzar armas à minha frente. E a perda de liberdade, meus amigos, é a pior das sensações.
Acaba no domingo o Quartel da Vergonha. Já não era sem tempo.
ps: que não se preocupem os mais sensíveis que existirão sempre tipos e tipas com gosto por se espojar na lama e esfregar no chão, antes de irem servir de choferes aos majores valentões.

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teatro
Na Malaposta, até dia 26, está a peça de Virgílio de Almeida "Fui às compras". Encenação de Carlota Gonçalves e Carlos Gomes (de quem vimos entre outras, as peças "Amok",e "Clube de Gelo"sob a sigla An-Carl-Go). Com Pedro Oliveira e Dora Bernardo na representação.
Uma mulher interroga-se sobre a sua relação com os homens e o mundo em geral, através do telefone.

12 de setembro de 2004

o tempo histórico

Hoje uma pessoa muito próxima disse-me que achava que eu vivia noutro tempo.
E a coisa pareceu-me bastante evidente.
Falta saber se elogiosa (riso)...

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ps: o problema nestes casos é esperarmos sempre mais do que poderá acontecer neste tempo.

contadores

Hoje lembrei-me do antigo contador deste blogue. Desaparecido pouco depois das 50000 visitas. Na verdade, desde que se sumiu esta coisa de saber se o que escrevi foi lido por 100 ou por 1000 pessoas num dia que tudo se tornou mais fluido. E simples.
Na verdade, temos em nós um raio de um mecanismo de agradar que só quando desligamos as máquinas que o alimentam é que nos damos conta do essencial.
Welcome, quantos vierem por bem. ;)

10 de setembro de 2004

TERMINAL DE AEROPORTO

Durante muitos anos tive o Spielberg por realizador favorito. Achei que o ET era uma obra-prima, a COR PÚRPURA um filme muito conseguido e por aí fora.
"Terminal" não contraria nada do que ele fez até agora. Tem as pontas todas certinhas e, de vez em quando, pisca um olho a formas mais ousadas de colocar a câmara ou de fotografar a cena. Merece, por certo, os 5 euros que (em Lisboa) desembolsei para o ver.
Não sei, contudo, se mereceria que os nossos críticos copiassem o entusiasmo da Variety.
Ainda assim, é de ver. Com calma.


A VIDA DURA DE ESCRITOR

Até há poucos meses achava que o mais difícil ao escrever um romance consistia em dominar dezenas de personagens moventes numa estrutura traiçoeira, enquanto se pensa por que cargas de água os novos ministros solicitavam 50 carros de luxo novinhos em folha e ao mesmo tempo achavam um desperdício apoiar a criação artística.
Estava enganado.
O mais difícil é teclar depressa com um gato novo no colo. Uma casa inteirinha para se estender e o estúpido! (desabafo breve, intervalado por um agitar de uma orelha felina com cócegas) acha que viver em cima das minha pernas é a felicidade suprema.
Help!
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8 de setembro de 2004

SÂNTANO- A SAGA (episódio 2)

Pá, ainda bem que afinal está tudo bem! Estamos a sair da crise, sempre que há Euro cá em casa; a PT, os seus investidores... e os respectivos administradores duplicaram os lucros anuais; as instâncias culturais estão controladas por Tias (simpáticas e com boa vontade, algumas...) que regressam a casa de Jaguar, depois de um dia divertido e que os sindicatos independentes vêm afirmar que "Já que se está a crescer, então que venham de lá esses aumentos".
Perante esta notícia, vou-me esquecer do número de desempregados aterrador, dos filhos que foram obrigados a voltar a viver com os pais porque não conseguiram pagar a renda, os velhos que se alimentam a sopas de leite porque a reforma não lhes dá para mais do que medicamentos e os sem-abrigo que se vão multiplicando em caixas de cartão.
O meu país vai de vento em popa, dizem os políticos e os empresários, satisfeitos.
Há-de ser verdade, por certo...

7 de setembro de 2004

AINDA A SAGA BARQUEIRA

O nosso ministro para a Defesa Das Mulheres Reprimidas lá veio todo contentinho dizer que o tribunal lhe deu razão. Como se isso significasse fosse o que fosse neste país. Basta que o recurso interposto entretanto seja aceite e a coisa volta para o lado oposto, enfim. Já antes tinha ouvido outro homem, do CDS (e já vão dois com pila a meter o bedelho nas coisas das mulheres, mas isto cada um é para o que pende...), a congratular-se com a respectiva decisão. Aparentemente tudo estaria resolvido a contento.
Um terceiro homem, Francisco Coelho da Rocha terá declarado à TSF que uma das holandesas aquáticas teria proferido "declarações que, para além de ofenderem deliberadamente a justiça e as leis portuguesas, bem como o juiz e o tribunal que proferiu a sentença, apelou à prática do aborto por mulheres portuguesas». Na cabeça desta criaturazinha, o mulherio vai passar a noite a tomar coisas para abortar. Tipo "Amigas, o k é k vamos fazer esta noite", "Eu keria ir kurtir pra discoteca...", "Oh, pah, essa cena n dá gozo. Bora aí fazer um aborto", "Pah, ó coisinha... mas se eu nem tou grávida...", "Fogo, minha, tu para cortares a cena... ouve lá...!".
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6 de setembro de 2004

SOUVENIR

Leio no fim de um livro a expressão "aturada pesquisa".
Lembrei-me logo dos meus tempos de faculdade.

5 de setembro de 2004

O REGRESSO (VOZVRASHCHENIYE)

Ao ver esta maravilhosa primeira obra percebi o que me afasta de tantas e tantas propostas de filmes nacionais e não só. Andrei Zvyagintsev tem alguma coisa para contar. Não está a fazer um filme porque "lhe apetecia desesperadamente fazer cinema", nem porque se acha um génio colocado por Deus na Terra para nos iluminar. Fez um filme (o processo de escrita do guião foi moroso e antecipadamente premiado) porque tinha algo para dizer. A nossa vida de espectadores, leitores e ouvintes seria tão mais fácil se toda a gente fizesse como ele...
A não perder, para os que viverem em Lisboa, ou em países onde o filme seja exibido.
DURA LEX SED ERRADEX

Surpreende-me sempre ver a forma como gente muito séria diz, ainda com ar mais sério, que a lei é para se cumprir. Não para se questionar. Qualquer lei. Mesmo que pareça irreal e insensata. Não há juiz nenhum que não afirme "limitei-me a aplicar uma pena de acordo com a lei". E limpam as mãos às pernas, de seguida.
Ora, basta olhar a História, ou até, não ter faltado muito às aulas do 5º ano, para perceber que as leis mudam. O entendimento dos homens muda. O que hoje é um "gravíssimo atentado às instituições" amanhã será uma coisa natural.
Há cerca de 100 anos as pessoas seriam presas por adultério. Hoje, é chato.
Há 10 (não sei se já mudou) um mancebo seria declarado livre da tropa se declarasse "padecer de homossexualidade". Hoje chega a ministro da Defesa.
Ontem, uma mulher viúva, sem filhos, perderia a maior parte do seu património a favor da família do falecido, hoje, ainda o homem não arrefeceu e já ela pode estourar tudo em festas de esquecimento.
Ontem, o que estava errado está, hoje, certo.
Em muitos casos, o horrível criminoso do passado é um cidadão respeitado do presente.
Então, não seria melhor pararmos de mandar para a fogueira todos os que nos parecem vagamente ameaçadores? Tentar perceber as causas dos seus actos e em que medida CONCRETAMENTE isso afecta a comunidade?
Digo eu, que estou farto de ver mudar os livros de História...
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4 de setembro de 2004

O SÂNTANO

Hoje entrei numa loja de roupas práticas e baratas e descobri que a nova colecção era constituída por pólos betosos, camisinhas de riscas e só não tinham sapatinhos de vela, sabe lá Deus por quê. Depois entrei noutra e... a mesma coisa: camisinhas de ir ao râguebi (por Toutatis! como se uma pessoa não tivesse mais nada que fazerr...!), o pavoroso riscado e, não verifiquei, mas desconfio da presença da calcinha de prega... Todas as tendências inovadoras que estas marcas de pronto-a-vestir tinham apresentado nos últimos anos se tinham sumido. Vanished. No ar. Como um passe de Houdini.
A ditadura Gant aí estava, disfarçada de Quebra-Mares e afins.
Quem viveu nos anos 80 (e já tinha consciência) terá lembrança do que foi o alastrar da mancha laranja. Primeiro foram as meninas ajaezadas a argoletas nas orelhas. Depois os meninos, subitamente alourados, com o sapatinho de vela a desatar. Reinava Cavaco nas Finanças, o automóvel em todo o lado e Santana era secretário de estado da cULTURA.
Hoje, vivem-se tempos piores. A moda alaranjada tinha como objectivo demosntrar que a juventude queria ganhar dinheiro, ser empresário, comprar belos apartamentos e carros.
Agora, nestes santanais tempos, ela reflecte apenas as cabeças ainda mais alouradas, os cabelos ainda mais compridos que nem sequer isso desejam. Apenas estourar o dinheiro que não têm, explorar pais até ao tutano, ficar a dever a quem for preciso e divertir-se, divertir-se, divertir-se...
Concordo com os laranjas que classificam o fim do mandato guterrista como um pântano, no sentido de local estagnado de onde tudo pode surgir. A prova aí está. Estas camisas penduradas nas lojas são a prova de que cogumelos do mais inútil e venenoso nos cresceram ao pé...
Vivemos no Sântano.


2 de setembro de 2004

LOL

Até já estou com pena dos "almofadinhas" do PP e dos parecia-que-ia-ser-canja do PSD com esta história do Barco do Aborto (a designação é linda, de facto....). Quando julgavam que iam abafar um pequeno incidente, com um "a bola é nossa e não brincam, prontoz!!", a coisa rebenta-lhes nas mãos. Não contaram, do meu ponto de vista, com 2 factores: 1) estamos na silly season, 2) a classe jornalística é composta maioritariamente por mulheres que vão pouco à missa.
Agora até vão ter que "estar disponíveis para discutir a lei".
Azarinho.

INDIE

Já aqui referi, mas repito: a partir de 24 de Setembro (uma semana) vamos ter (em Lisboa, helàs e claro...) a primeira edição do Festival Internacional de Cinema Independente - INDIELISBOA.
A seleccção é excelente (trust me) e a competição pelo Grande Prémio vai ser renhida.
Sou suspeito, mas sugiro que não percam as curtas-metragens (quer a Competição Oficial, quer o Observatório).
Entre as longas, muitas ante-estreias e visionamentos únicos do melhor que se produziu no mundo em 2003 e 2004.
Voltarei ao tema.
Tudo em www.indielisboa.com

indie.JPG
TRAFFIC

Quanto é que custaria colocar cartazes junto às estradas portuguesas com a seguinte frase:
"Você vai morrer em breve. No máximo, dentro de alguns anos. Não vale a pena apressar a coisa"?
NÓS

De vez em quando, se estou muito cansado, dou por mim em exercício de autocomiseração. Hoje, depois de sobreviver à estrada, deslizei para essa deplorável prática. Foi preciso tocar o telefone para eu me lembrar da velha frase sobre o Homem "ser a medida de todas as coisas". Ou pelo menos, de si próprio.
A partir daí, tudo ficou mais controlável ;)